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Unidos pela Mudança: Soluções Comunitárias para Prevenir o Casamento Infantil
Published 09/02/2025 by rferreira
Sanjay Dubey, professor do ensino médio no distrito de Palamu, em Jharkhand, Índia, fazia a chamada de sua turma do 9º ano quando percebeu algo preocupante — Shreya*, uma de suas alunas, estava ausente havia cinco dias consecutivos.
Não era um caso isolado. Repetidas vezes, Sanjay havia visto meninas do 9º e 10º ano — em geral com apenas 16 ou 17 anos — desaparecerem silenciosamente da escola. Sem despedidas, sem explicações. Mais cedo ou mais tarde, a razão sempre surgia: haviam sido casadas e forçadas a abandonar os estudos.
Jharkhand apresenta algumas das maiores taxas de casamento infantil da Índia. Meninas de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica muitas vezes são casadas precocemente pelos pais, como forma de aliviar dificuldades financeiras e por falta de oportunidades. A PCI Índia, parceira da Global Communities, atua para prevenir esse problema por meio do Projeto Umang, que mobiliza coletivos de mulheres para conscientizar sobre alternativas e caminhos diferentes.

A PCI Índia, parceira da Global Communities, vem implementando o Projeto Umang em parceria com a Palash desde 2019. O projeto começou como piloto em dois blocos de Jharkhand, mas desde então foi expandido para um total de sete distritos do estado. Até o momento, o Umang já alcançou 178 mil mulheres com informações sobre como adiar casamentos precoces em suas comunidades. A iniciativa também capacitou mais de 50 lideranças comunitárias e 100 professores em aconselhamento psicossocial e de carreira para meninas adolescentes. Como resultado, mais de 300 meninas foram rematriculadas na educação formal. Isso se soma aos esforços do próprio governo.
Rompendo o ciclo por meio da ação comunitária
Determinando-se a não deixar que Shreya se tornasse mais uma estatística, Sanjay conversou com colegas da aluna e confirmou seu receio: o casamento dela havia sido arranjado. Sem perder tempo, ele contatou Sandhya Devi, Agente Comunitária de Gênero (CRP, na sigla em inglês), formada pelo Projeto Umang. Se alguém poderia intervir e mudar o rumo da história, era ela.
“Quando recebi a informação da escola, percebi que precisávamos agir rápido, pois a menina seria noiva no mesmo dia”, contou Sandhya, que atua junto à Jharkhand State Livelihood Promotion Society (atualmente chamada de “Palash”). Desde 2019, a PCI Índia implementa o Projeto Umang em parceria com a Palash.
Ao conversar com a mãe de Shreya, Sandhya descobriu que os pais estavam casando a filha mais velha para aliviar o peso financeiro da família. Para eles, não havia mal em seguir uma prática comum na comunidade.
“Nesse momento, destacamos que os tempos mudaram e lembramos os males do casamento infantil — como ele prejudica a educação, a saúde, a carreira e a independência econômica das meninas”, relatou Sandhya. “Também fizemos a mãe perceber seu papel como agente de mudança para o futuro da filha.” Após uma longa conversa, a mãe de Shreya concordou em desafiar o casamento arranjado. Ainda disposta a negociar com a família e com os futuros sogros da filha, reconheceu que precisaria de apoio para convencê-los.
Esse apoio veio do Projeto Umang.
Menka, outra Agente Comunitária de Gênero, visitou a família e promoveu um diálogo aberto com ambos os lados. Ela explicou cuidadosamente as implicações legais da Lei de Proibição do Casamento Infantil e as possíveis consequências de seguir adiante com a união. Mais importante ainda, falou de forma clara sobre o impacto de longo prazo que o casamento precoce teria na vida de Shreya — em sua educação, sua saúde e sua capacidade de conduzir a própria vida.
As palavras tiveram efeito. Logo, membros da comunidade e líderes locais se juntaram em apoio, reforçando a urgência da mensagem. A união das vozes mudou o rumo da história: ao final, as duas famílias concordaram em cancelar o casamento.

Além da intervenção: criando caminhos para o futuro
Para Menka e Sandhya, o desfecho representou uma vitória significativa em uma região onde o casamento infantil é frequentemente visto como tradição. Elas atribuem o sucesso à formação recebida pelo Projeto Umang, que lhes deu ferramentas e confiança para intervir — e gerar mudanças onde antes parecia impossível.
“O melhor do Umang é que ele não se limita a interromper casamentos precoces. Vai além, oferecendo orientação a meninas adolescentes e seus pais sobre alternativas”, explicou Sandhya, citando o Kishori Help Desk, um dos componentes do projeto. Por meio dessa plataforma, o Umang oferece serviços comunitários de orientação sobre carreira, educação, habilidades de vida e também oportunidades de bolsas de estudo. Até hoje, já foram lançados 15 Help Desks Kishori.
“Com o Umang, estamos levando a mensagem sobre questões de gênero — especialmente educação de meninas e casamento infantil — o mais longe que conseguimos”, disse Menka, uma entre mais de 400 Agentes Comunitárias de Gênero atuantes em Jharkhand.
Enquanto isso, Shreya está feliz por estar de volta à escola. Concluiu com sucesso as provas finais e foi promovida ao 10º ano. Agradecida a seu professor e à equipe do Umang por protegerem seu futuro, ela sonha em continuar os estudos.

*O nome foi alterado para proteger a identidade.